Com mais de 250 mil pontos do estado sem acesso à energia elétrica, os rádios de pilha se tornaram itens essenciais de informação para pessoas afetadas pelas enchentes no Rio Grande do Sul. É por meio do aparelho considerado quase arqueológico nos dias atuais que essa parcela da população consegue se inteirar da situação emergencial da região onde vivem e receber notícias sobre serviços assistenciais.
A demanda é tão urgente que, em meio aos inúmeros itens de doação, grupos de voluntários têm se mobilizado para arrecadar rádios de pilha e levá-los às comunidades mais afetadas. A Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), está à frente de uma campanha e já distribuiu 33 aparelhos. Apenas ontem, 14 rádios foram entregues em Sinimbu, município da região do Vale do Rio Pardo que está, em partes, sem acesso à internet. Os demais foram distribuídos em Santa Cruz do Sul e Santa Maria.
Alertas de chuva
De acordo com o professor do curso de Comunicação Social da Unisc Willian Araujo, um dos coordenadores do projeto, a ideia surgiu depois que vários lugares, especialmente do interior, ficaram completamente sem comunicação.
— Diante de uma tragédia como a que estamos vivendo, mesmo as tecnologias mais robustas ficam inacessíveis. Nessas horas, as ondas sonoras curtas do rádio, muito usado por pessoas mais velhas, tornam-se a salvação por ter maior alcance. Está sendo uma grande arma contra as fake news — afirma o professor.
O aposentado Valdemar Jochimf, de 99 anos, foi um dos que recebeu o rádio. Ouvinte fiel dos veículos sonoros gaúchos, ele perdeu seu aparelho para as enchentes, que levou ainda quase todos os móveis da casa em que mora, em Santa Cruz do Sul. O radinho, que ora ficava na cabeceira da cama, ora em suas mãos para ouvir mais atentamente as notícias, foi o responsável por lhe avisar sobre as fortes chuvas que atingiram a cidade na última semana e auxiliou a família a encontrar abrigo em locais mais seguros.
Neta de Valdemar, Fabiana Jackisch lembra que essa é a segunda grande tragédia vivida pelo avô, que também foi vítima das chuvas em 1941, até então a maior da história do Rio Grande do Sul:
— A água alcançou 1,5 metro na casa do meu avô. A sorte é que a minha tia foi buscá-lo antes de inundar. Ele sempre acompanhava as notícias na rádio AM, comentava o que estava acontecendo e ficava preocupado com a gente e com a cachorrinha dele. Ficou feliz que ganhou um novo companheiro, porque ele ouve a programação o dia inteiro.
Depois de cerca de três dias sem luz, o aposentado Dari Lopes, de 75, recebeu um rádio de presente da filha, a auxiliar de serviços gerais da Unisc Miriam Barros. Sem o aparelho, ele estava com medo de ter algum aviso emergencial de evacuação e não conseguir buscar ajuda.
— O rádio agora é uma fonte de sobrevivência, pois nunca sabemos quando a situação pode piorar — diz Miriam.
Em cenários de catástrofe ambiental, as ondas curtas do rádio são as únicas que permitem a transmissão radiofônica em vastas áreas da superfície terrestre, ultrapassando fronteiras.
Ondas curtas
No último fim de semana, o Ministério das Comunicações informou que as rádios comunitárias do Rio Grande do Sul podem formar redes de comunicação, enquanto durar a situação de calamidade pública, para transmitir exclusivamente conteúdos de auxílio às vítimas, inclusive utilizando o material produzido pela Empresa Brasil de Comunicação.
A EBC, inclusive, direcionou um dos transmissores em ondas curtas da Rádio Nacional da Amazônia para a região Sul. Agora, a emissora vai dedicar duas faixas diárias de conteúdo com informação, prestação de serviços, emissão de sinais de alerta e participação dos ouvintes.
O rádio chegou ao Brasil, oficialmente, com a comemoração do centenário da Independência, em 1922. Hoje, o aparelho de pilha está em desuso e tem sido difícil encontrar itens à venda.
Voluntários estão arrecadando doações de equipamentos em bom estado e pacotes de pilha; basta entregá-los no hall da Reitoria da UFSM. Quem preferir ajudar com dinheiro, deve usar o pix doeumradio@gmail.com; cada aparelho custa, em média, R$ 40.
Fonte: Portal Peperi
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