A edição deste sábado, 22, do programa Retrato Falado, da Rádio Peperi, recebeu Noeli Margarida Zucolotto, moradora de Bandeirante e personagem de uma história marcada pelo trabalho, pela educação e pelas transformações vividas no Extremo Oeste de Santa Catarina.
Aos 79 anos, Noeli relembrou momentos da infância, a mudança do Rio Grande do Sul para Santa Catarina e os primeiros anos de vida em Bandeirante. Nascida na Colônia Itagiba, em São Francisco de Paula (RS), ela deixou o estado gaúcho aos seis anos de idade, junto com os pais, Antônio Jacob Menegas e Melita Ferreira Maciel Menegas, e os irmãos.
Integrante de uma família de dez filhos, Noeli contou que desde muito pequena ajudava nas tarefas de casa e na roça. Aos seis anos, já auxiliava a mãe, que era costureira, cuidava dos irmãos mais novos e participava do trabalho agrícola. A rotina incluía lavar roupas, ordenhar vacas, cuidar dos animais e ajudar na produção da propriedade.
A família chegou a Bandeirante em 23 de maio de 1953. Segundo Noeli, a terra adquirida pelo pai e pelo tio era coberta por mata e não possuía estrada ou estrutura para moradia. A abertura dos acessos foi feita manualmente, com ferramentas como picareta e enxada. A construção da casa também contou com madeira serrada à mão pelos próprios familiares.
Uma infância marcada pela simplicidade
Noeli recordou que a vida no interior era difícil, mas também destacou a convivência entre os familiares e a alimentação produzida pela própria família. Na época, não havia energia elétrica, água encanada ou geladeira. A conservação dos alimentos exigia técnicas como a produção de queijos, salames e carnes conservadas na banha.
Ela também lembrou das dificuldades para chegar à escola. O trajeto até a antiga Escola Estadual Américo Lopes, no centro de Bandeirante, tinha cerca de quatro quilômetros e era percorrido a pé. O calçado utilizado era o tamanco e, em algumas ocasiões, as crianças confeccionavam os próprios chinelos com palha de milho. Foi nesse ambiente que Noeli iniciou sua trajetória na educação. Influenciada pela tia e madrinha, a professora Odete Otília Ferreira Marcial Nietzsche, ela começou a lecionar aos 16 anos e meio, substituindo a própria madrinha quando ela precisou se afastar para cuidar da família.
Mesmo tendo estudado somente até a quarta série, Noeli assumiu turmas e passou a trabalhar na educação das crianças da região. Em determinado período, lecionava pela manhã em Bandeirante e à tarde na comunidade que atualmente é conhecida como Linha Hélio Vasso, então chamada Guavirova. Para chegar à escola, percorria cerca de sete quilômetros a cavalo.
A professora permaneceu na atividade até 1973, acumulando quase uma década de experiência em sala de aula. Durante a entrevista, ela destacou o carinho que mantém pelos antigos alunos e lembrou de homenagens recebidas ao longo dos anos.
Família e novas responsabilidades
Noeli também contou como conheceu o marido, Erlindo Zucolotto, com quem é casada. Os dois se conheceram ainda jovens, quando frequentavam a escola. O casal posteriormente se casou em São Miguel do Oeste, em uma cerimônia conduzida pelo Padre Aurélio que reuniu sete casamentos. Da união nasceram seis filhos: José Antônio, já falecido, Claire Luiz, Sandra Madalena, Janice, Cristina, Márcio Paulo e Valnei Marcos. Noeli também tem sete netos.
Depois do casamento, ela continuou trabalhando como professora enquanto cuidava da família e ajudava o marido, que era agricultor. Com o nascimento dos filhos e as dificuldades de deslocamento, principalmente para participar das reuniões de professores em São Miguel do Oeste, decidiu deixar a sala de aula.
Noeli relatou que, em determinada época, precisava percorrer o trajeto a pé com um dos filhos, ainda bebê, para chegar até Bandeirante e posteriormente seguir para São Miguel do Oeste. A região ainda não contava com pontes adequadas e, em alguns pontos, era necessário atravessar por uma pinguela.
Memórias de uma região em transformação
Durante o programa, Noeli também comparou a realidade encontrada pela família na década de 1950 com o desenvolvimento atual de Bandeirante, da comunidade da Prata e de São Miguel do Oeste. Ela lembrou que a comunidade possuía poucas estruturas e que até mesmo os encontros religiosos aconteciam de maneira diferente. As famílias se reuniam para rezar o terço aos domingos, enquanto a presença de um padre ocorria com pouca frequência. Para Noeli, acompanhar o crescimento da região é motivo de admiração. Ela destacou a expansão das comunidades, das escolas e das estruturas que hoje fazem parte do cotidiano da população.
Atualmente, entre as atividades de lazer, Noeli conta que costuma jogar baralho com o marido e amigos da comunidade. Também participa de atividades com idosos, do clube de mães e procura frequentar a igreja.
Emoção ao lembrar dos familiares e alunos
Um dos momentos de maior emoção da entrevista ocorreu quando Noeli falou sobre pessoas importantes em sua trajetória, especialmente a madrinha e professora Odete, que faleceu há nove anos. Noeli também recordou o pai, a mãe e outros familiares, destacando o carinho que recebeu do pai durante a infância. Ao falar sobre o passado, ela afirmou que não gostaria de reviver as dificuldades enfrentadas naquela época, principalmente a falta de alimentos, energia elétrica, água encanada e outras condições básicas. Apesar disso, guarda com carinho as lembranças da convivência familiar e da trajetória como professora.
Ao final do programa, Noeli deixou uma mensagem aos ouvintes e aos antigos alunos. Ela agradeceu especialmente à ex-aluna Líria Prévida, responsável por incentivá-la a participar do Retrato Falado, e enviou um abraço aos estudantes que passaram por sua sala de aula.
“Eu não esqueço de vocês, como vocês não esquecem de mim”, afirmou Noeli durante a entrevista.
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