Mais do que um alimento típico do inverno, o pinhão representa renda, cultura e identidade para agricultores do Oeste de Santa Catarina. Em municípios como Ponte Serrada, onde há forte presença de araucárias, a produção do fruto se transforma em uma importante fonte de sustento, especialmente no período de transição entre as safras de verão e inverno.
A valorização da cultura também se reflete em eventos tradicionais, como a Festa do Pinhão, que reúne pratos variados à base do ingrediente, desde opções salgadas até doces, como o pudim.
Entre a tradição e a renda no campo, o pinhão segue sendo protagonista na região. Em 2026, no entanto, a produção deve cair cerca de 35%, reflexo do ciclo natural da araucária e das variações climáticas. Mesmo com a previsão de safra menor, produtores já se organizam para manter a atividade e preservar uma cultura que atravessa gerações.
De acordo com a engenheira agrônoma e extensionista rural da Epagri de Ponte Serrada, Jaqueline Cristina do Amaral, o trabalho desenvolvido na região vai além da produção.
— O nosso apoio está muito ligado à questão ambiental e sustentável, principalmente em áreas de recuperação. A araucária é uma espécie nativa, que se adapta muito bem à nossa região e, ao mesmo tempo, proporciona renda ao agricultor. A gente sabe que ele precisa ter retorno da terra, então buscamos conciliar preservação e produção — explica.
Produção deve ser menor em 2026
Apesar da importância econômica, a expectativa para este ano é de queda na produção. A estimativa é de redução de cerca de 35% em relação ao ano passado, conforme dados da Epagri. Segundo Jaqueline, isso se deve tanto ao ciclo natural da planta quanto às condições climáticas.
— A araucária tem um ciclo longo. Quando um ano é muito produtivo, como foi o anterior, é natural que no seguinte haja uma redução, porque a planta está se preparando para o próximo ciclo — afirma.
Além disso, o clima também impactou diretamente a safra.
— Tivemos excesso de chuva no período de polinização, no fim do ano, o que prejudicou a fecundação. E, em janeiro, a estiagem atingiu justamente a fase de formação do pinhão. Essas duas situações acabam interferindo bastante na produção — completa.
Diferença está na qualidade do pinhão
Embora não seja a região com maior volume de produção, Ponte Serrada se destaca por características específicas do pinhão, especialmente relacionadas ao solo e à altitude.
— Aqui temos áreas que chegam a 1.200 metros de altitude, o que garante as horas de frio necessárias. Além disso, o solo argiloso, com presença de minerais diferentes da região serrana, pode influenciar na coloração e até no sabor do pinhão. Não somos os maiores produtores em quantidade, mas podemos ser reconhecidos pela qualidade diferenciada do nosso produto — completa.
Renda extra e movimento na cidade
O período de colheita do pinhão começa oficialmente em 1º de abril, antes disso, a retirada é proibida por lei. A partir dessa data, o cenário muda nas propriedades e também nas margens das rodovias.
— É uma época em que as culturas de verão já estão encerrando e o agricultor começa a se preparar para o inverno. O pinhão entra como uma renda complementar importante — explica Jaqueline.
Em Ponte Serrada, o fluxo de pessoas também impulsiona as vendas.
— O município tem característica de passagem, com bastante movimento. Isso faz com que muitas pessoas parem para comprar pinhão, consumir e conhecer mais da nossa cultura — afirma.
Epagri aposta em tecnologia e sustentabilidade
O trabalho da Epagri também envolve pesquisa e inovação. Um dos focos está no desenvolvimento de cultivares que facilitem o manejo e a colheita.
— Temos estudos em melhoramento genético, desenvolvidos no Centro de Pesquisa da Agricultura Familiar (Epagri/Cepaf), em Chapecó. Um dos objetivos é trabalhar com araucárias de porte menor, para facilitar a colheita e melhorar a qualidade de vida do agricultor — explica.
Além da araucária, a instituição também atua com outras culturas, como a erva-mate, reforçando a diversificação das propriedades rurais.
Fonte: NSC Total
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