Levantamento inédito em SC quer mapear crianças que ficaram órfãs após casos de feminicídios

Por Ricardo Orso, São Miguel do Oeste

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Levantamento inédito em SC quer mapear crianças que ficaram órfãs após casos de feminicídios
Foto: Divulgação, NSC Total

O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) e a Polícia Científica querem mapear, em um levantamento inédito, quantas crianças e adolescentes ficaram órfãos após perderem suas mães depois de feminicídios em território catarinense. De acordo com o MP, não há, atualmente, dados que identifiquem este grupo, o que, consequentemente, não viabiliza o acesso deles à rede de proteção.

O trabalho iniciou na última sexta-feira (19) em uma reunião entre os órgãos conduzida pelo Núcleo de Enfrentamento a Violências e Apoio às Vítimas do Ministério Público. Conforme o MP, um dado já levantado pelo órgão indica que 45,9% das mulheres vítimas de feminicídio tinham filhos em comum com o agressor. No entanto, não há detalhes disponíveis sobre quantos são ou em que situação estão neste momento.

Isso porque os números existentes fazem parte de informações fragmentadas, restritas, muitas vezes, aos autos da investigação criminal, sem precisão sobre o número de filhos das vítimas, por exemplo. Para o MP, essas crianças e adolescentes acabam não tendo o acesso previsto à políticas públicas específicas e acompanhamento adequado após o crime.

— Quando fomos questionados sobre o número de órfãos do feminicídio no Estado, sequer conseguíamos estimar. Sabemos que muitas dessas mulheres eram mães, mas não sabemos quantas crianças e adolescentes foram atingidos. Nosso objetivo é justamente fechar essa lacuna para que possamos mobilizar toda a rede de proteção e garantir assistência a essas vítimas indiretas — disse a promotora de Justiça Chimelly Louise de Resenes Marcom.

Falta de rede de apoio às crianças preocupa MP

A preocupação do Ministério Público é com aquelas crianças que não possuem rede de apoio e podem estar em acolhimento institucional. Por isso, o MP quer realizar o levantamento para permitir a atuação articulada com a assistência social para verificar a realidade de cada caso.

Com isso, as crianças poderiam ter acesso a benefícios sociais como a pensão especial destinada a dependentes de vítimas de feminicídio, por exemplo. A norma, criada pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), concede um salário-mínimo, estipulado em R$ 1.621, para menores de 18 anos cuja renda familiar per capita seja igual ou inferior a um quarto do salário-mínimo, ou seja, R$ 405,25.

O MP considera a parceria com a Polícia Científica essencial para que o levantamento seja feito com base no acesso restrito a bancos de dados e a limitação das informações disponíveis nos processos criminais.

Um feminicídio por semana em 2026

Conforme o Observatório de Violência contra a Mulher em Santa Catarina, da Assembleia Legislativa catarinense, foram registrados 23 feminicídios entre janeiro e maio de 2026. Nos 150 dias analisados, o Estado teve uma mulher morta a cada seis dias durante o ano. A maior parte dos casos aconteceu em abril, com 10 mortes.

Os dados mostram que, dos 23 casos, 13 foram cometidos pelo companheiro ou marido, enquanto seis vítimas foram mortas pelo ex-companheiro ou pelo ex-marido.

Em junho, pelo menos três feminicídios foram registrados em Santa Catarina. O primeiro caso aconteceu em Entre Rios no dia 13 de junho, quando Ana Paula Veloso Hortega, de 25 anos, foi morta na frente dos dois filhos de 1 e 3 anos. O companheiro dela, um homem de 23 anos, foi preso suspeito pelo crime.

Conforme informações da Polícia Civil, Ana Paula estava com o suspeito horas antes do crime em uma confraternização. Na madrugada do dia 13, a jovem foi encontrada morta com ferimentos provocados por faca.

Outro caso foi registrado em Criciúma. Maria Eduarda Salvaro, de 21 anos, foi encontrada morta no próprio apartamento, com suspeita de asfixia. O namorado dela afirmou que manteve o corpo da jovem morta na residência por pelo menos dois dias até ela ser encontrada já sem vida na sexta-feira (19). Para o Ministério Público, ele teria forjado uma cena de suicídio para afastar sua responsabilidade no crime.

Nesta terça-feira (23), uma mulher foi encontrada morta dentro de uma casa em uma propriedade rural em Lages. O suspeito pelo crime é o companheiro dela, que fugiu logo após o assassinato e continua sendo procurado pelas autoridades.

Fonte: NSC Total

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