O “sumiço” dos argentinos é sentido por comerciantes do Norte da Ilha, em Florianópolis. Tradicional reduto desse público, a região registra movimento mais baixo no início desta temporada em comparação com o ano passado. Donos de quiosques, ambulantes e operadores de turismo relatam prejuízos, queda nas vendas e frustração de quem investiu apostando em um verão forte.
Um levantamento da Fecomércio SC, divulgado na semana passada, mostra que a participação de turistas argentinos em Florianópolis caiu de 39% do total de visitantes no início da temporada passada para 24% neste ano. O dado ajuda a explicar a percepção relatada por quem trabalha diariamente nas praias da Capital.
A ambulante Suzane Souza, que trabalha há 14 anos nas praias de Florianópolis, afirma que a presença desse público praticamente desapareceu fora de um ponto específico.
— Não tem turismo de argentino. A única praia que tem argentino hoje é Canasvieiras — diz Suzi.
Ela vende tapioca nas praias da Daniela e de Jurerê e afirma que a baixa demanda tem impactado diretamente o faturamento.
— Antes eu não andava cinco metros e já estava vendendo de novo. Agora você anda a praia inteira, vai e volta, e não consegue vender um produto — lamenta.
Expectativa era de 3 milhões
O verão começou com a expectativa da prefeitura de receber cerca de 3 milhões de turistas entre 15 de novembro de 2025 e 15 de maio de 2026. A projeção animou comerciantes, que se prepararam para um público semelhante ao da temporada passada, quando o câmbio favorável impulsionou a presença de argentinos nas praias catarinenses.
O cenário, porém, não se confirmou. No litoral de Santa Catarina como um todo, a participação de turistas argentinos caiu de 22% no ano passado para 19% neste início de temporada, segundo a Fecomércio SC. Algumas cidades registraram aumento, como Laguna, que passou de 7% para 20%, e Imbituba, de 9% para 19%. Florianópolis, por outro lado, foi a cidade mais impactada pela retração.
Investimento alto e retorno incerto
A queda aparece nos números do dia a dia. Nazareno Jacques, proprietário de um quiosque na praia da Daniela, conta que vendia cerca de 60 caipirinhas por dia nos fins de semana do verão passado. Neste ano, a média caiu para 20.
— Argentino, praticamente nada. O que nós temos é chileno e uruguaio — relata.
A frustração também atinge quem investiu pesado apostando em uma temporada forte. Dono de um quiosque em Jurerê Internacional, Wagner Ibias conta que pagou mais de R$ 600 mil no leilão do ponto. No ano passado, segundo ele, o investimento foi de cerca de R$ 100 mil.
A expectativa era compensar o valor ao longo da temporada, o que ainda não aconteceu.
— Até agora não deu — resume.
O que motivou o “sumiço” dos argentinos?
De acordo com a Fecomércio SC, a redução da presença argentina no litoral catarinense está ligada a uma combinação de fatores econômicos. O Índice de Confiança do Consumidor Argentino registrou queda de 1,04% em dezembro de 2025, na comparação com o mesmo mês de 2024.
Além disso, o endividamento das famílias argentinas passou a representar 5,4% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre de 2025, ante 5% no primeiro trimestre do ano.
Outro fator citado é a valorização do real ao longo de 2025. A moeda brasileira acumulou alta de 11% em relação ao dólar no ano passado, tornando o Brasil um destino relativamente mais caro para os argentinos.
— Na temporada passada, o Brasil estava muito barato para eles. Havia uma diferença grande entre os preços praticados aqui e na Argentina. Neste ano, esse gap diminuiu, o que ajuda a explicar a redução da presença deles nas nossas praias — afirma o presidente da Fecomércio SC, Hélio Dagnoni.
O NSC Total questionou a prefeitura de Florianópolis sobre os motivos para a queda de turistas argentinos na cidade, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.
Fonte: Portal Peperi
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