As famílias catarinenses nunca comeram tão pouca carne bovina neste milênio como em 2021. A proibição pelo Procon de SC da venda de ossos em açougues e mercados por conta do aumento do preço revela o cenário onde o produto se tornou inacessível para a maior parte da população.
A pesquisa mais detalhada sobre as condições de vida das famílias brasileiras é a POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), feita em intervalos de seis ou sete anos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). As coletas são feitas nos domicílios.
Uma família catarinense que comprava 18,4kg de carne vermelha por ano em 2002 teve que diminuir 3,5kg em 2018 – a média era 14,9kg em todos os 12 meses. Ou seja, os dados divulgados em 2019 mostram que reduziu em 20% a quantidade de carne vermelha nos refrigeradores das casas.
Mas não foi uma queda gradual. Entre a pesquisa realizada no início dos anos 2000 e a mais recente há o estudo feito em 2008. Neste ano, as famílias catarinenses consumiam cerca de 20,9kg por ano. Foi o período mais farto.
Ainda não sabemos exatamente como o cenário mudou na pandemia. A coleta de dados para a próxima edição da POF deve ser realizada apenas após o Censo Demográfico, que foi adiado para 2022. Ela permitirá saber com exatidão o impacto nas casas catarinenses.
A situação com certeza é muito pior, avalia Lauro Mattei, professor do curso de Ciências Econômicas e coordenador do Necat (Núcleo de Estudo de Economia Catarinense) da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
“O que ocorre agora é diferente do que ocorria atrás. Antes as famílias trocavam a carne bovina por frango ou ovo. Agora não trocam por nada“, explica o professor. A substituição tem nome: “migração proteica”. Mas mesmo a procura pelos outras fontes de proteína caiu. Comparando 2002 e 2018, as famílias comem menos carne suína (-21,5%), frango (-12,4%) e ovos (-72%).
As altas taxas de desemprego e as filas vistas no Brasil para conseguir doações de ossos de carne atestam isso. Uma pesquisa do Datafolha no último dia 20 mostrou que 67% da população brasileira diminuiu o consumo de carne vermelha.
A situação é contraditória: a produção de carne vermelha cresceu no Brasil, mas a sentida no estômago. Os custos de produção também não aumentaram significativamente. A diminuição no consumo tem relação com a característica do preço da carne, que ficou mais cara.
“A carne é uma commoditie internacional, o preço é fixado lá fora. O preço internado é equiparado ao preço internacional. A resposta está relação do mercado internacional e nacional. E o preço do dólar subiu muito”, explica o professor Lauro Mattei.
Se passamos a comer mais carne em 2008 é porque o país cresceu -assim como o salário-mínimo e o salário real. Ou seja, o ajuste não foi apenas uma correção da inflação. A lei que estabelecia melhora do mínimo com base no PIB (Produto Interno Bruto) foi extinta em 2019.
“Uma reversão começaria apenas em 2023 e 2024, com a melhora econômica. O crescimento neste ano só vai o repor a retração no ano anterior. Enquanto isso vemos não tendo mais poder de compra cada vez mais passando fome. É caótico”, concluí Mattei.
Fonte: Portal Peperi
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