Três cidades concentram 25% dos acidentes de trabalho registrados em SC

Por Ricardo Orso, São Miguel do Oeste

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Três cidades concentram 25% dos acidentes de trabalho registrados em SC

Cerca de 39 mil pessoas sofreram acidentes de trabalho em Santa Catarina no ano de 2025. Conforme levantamento do Observatório Fiesc, desse número, 170 perderam a vida. Segundo um especialista da Universidade da Região de Joinville (Univille), a falta de conscientização sobre segurança no trabalho é um dos principais motivos para a manutenção do alto número de acidentes de trabalho no Estado.

Joinville, Blumenau e Florianópolis são os municípios catarinenses que mais registraram acidentes de trabalho em 2025, com 4,8 mil, 2,6 mil e 2,5 mil, respectivamente. De acordo com Claudemir Fernandes Martins, técnico em Saúde e Segurança do Trabalho da Univille, a tendência é que essas cidades tenham uma maior probabilidade de ocorrências por terem uma grande população ativa e trabalhando.

Itajaí, São José, Chapecó, Jaraguá do Sul e Criciúma também se destacam na lista com mais de mil registros cada uma. Joinville também lidera a lista com o maior número com mortes; no último ano, foram 10 óbitos contabilizados no município.

Acidentes de trabalho em 6 anos

Entre 2020 e 2025, Santa Catarina registrou 218 mil acidentes de trabalho. Os dados mostram um movimento de alta até 2023, seguido de queda e leve retomada em 2025, tanto para acidentes quanto para óbitos.

Entre 2020 e 2023, houve um crescimento consistente no número de acidentes: de 25 mil para 43 mil, um salto de cerca de 72% no período.

— Historicamente, os números sempre se mantiveram em um patamar alto, tendo uma queda durante a pandemia e retornando principalmente a aumentar a partir de 2022 — analisa Claudemir Fernandes Martins, técnico em Saúde e Segurança do Trabalho da Univille.

Em 2024, ocorreu uma queda relevante: foram 38 mil acidentes, -11,6% em relação a 2023. Em 2025, no entanto, o número voltou a subir, chegando a 39 mil.

— Enquanto a sociedade não entender as reais necessidades relacionadas à saúde e segurança do trabalhador, com uso efetivo de EPIs adequados, processos de trabalhos bem elaborados e trabalhadores bem treinados, esse cenário pouco irá mudar — pondera Martins.

Mortes por acidente de trabalho

No caso das mortes, a variação foi mais irregular durante o período analisado. Houve um aumento expressivo entre 2020 e 2022: de 117 para 245, indicando um período de maior gravidade nos acidentes. Os números caíram em 2023 e 2024, mas voltaram a subir em 2025, ano que registrou 170 mortes.

O pico de acidentes, em 2023, não coincidiu com o pico de mortes, que foi em 2022. Isso pode indicar mudanças no perfil das ocorrências.

— Não existe um único fator. Podemos, inicialmente, analisar que Santa Catarina vive quase que o pleno emprego, com uma taxa de 2,3% de desemprego em 2025, o que mostra que tanto na indústria, quanto em serviços tem muita gente trabalhando. Outro aspecto está ligado ao fator cultural do brasileiro, que percebe a sua própria segurança como algo trivial. Temos uma baixa cultura de saúde e segurança do trabalho — diz o técnico.

Setores com mais acidentes

No estado, as áreas de “saúde” e “alimentos e bebidas” são as que mais registraram acidentes desde 2020. “Alimentos e bebidas” liderou a lista até 2024, com 19.253 ocorrências no período analisado. Já em 2025, os “serviços de saúde” assumiram o topo com 3.396 acidentes — enquanto “alimentos e bebidas” ficou em segundo lugar, com 3.304.

— Quanto mais pessoas temos trabalhando, também mais pessoas estarão indo para serviços de saúde, ocasionando mais exposição dos profissionais de saúde ao risco de acidentes, onde ocorrem principalmente acidentes com material contaminado e perfurocortantes — detalha Martins.

De acordo com o técnico, o setor de “alimentos e bebidas” continua registrando o maior número de mortes, principalmente devido à exposição dos empregados aos riscos do trânsito. No período, foram 74 mortes — número 362,5% maior do que em “serviços de saúde”, que teve 16 óbitos.

Já no último ano, foram registrados 39 mil acidentes de trabalho, com 170 mortes. Do total, 28.399 ocorrências — e 94 mortes — foram registradas como “típicas”, ou seja, aconteceram durante o horário de trabalho. Outras 9.369 — com 76 mortes — aconteceram durante o trajeto até a empresa ou até a residência da vítima.

Considerando todos os setores, entre 2020 e 2025 houve 1.027 mortes decorrentes de acidentes de trabalho.

Martins ainda afirma que as empresas de Santa Catarina precisam criar o hábito de falar sobre saúde e segurança do trabalho para seus empregados e terceirizados.

— Mais que cumprir regras, é papel social da empresa garantir a saúde e segurança dos seus trabalhadores — diz.

Cidades sem acidentes de trabalho em 2025

Treze cidades catarinenses não registraram acidentes de trabalho em 2025: Balneário Rincão, Bela Vista do Toldo, Chapadão do Lageado, Entre Rios, Lacerdópolis, Ouro Verde, Pescaria Brava, Presidente Castello Branco, Rancho Queimado, Romelândia, Santa Terezinha do Progresso, Santiago do Sul e São José do Cerrito.

Para o técnico em segurança do trabalho, o principal desafio para reduzir, e até zerar, os acidentes de trabalho no Brasil é a educação.

— Não me refiro somente à educação formal, mas aquela que vem de casa, da família. Precisamos educar melhor nossos filhos, para que sejam pessoas melhores e que respeitem os colegas de trabalho e também as normas legais instituídas em relação a saúde do trabalhador — conclui.

Fonte: NSC

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