Que o ovo ficou mais caro todos os brasileiros já sabem. Das manchetes dos jornais aos memes nas redes sociais, este é o assunto do momento. Na última quinta-feira (27), um levantamento do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) revelou que, em março, a proteína ficou 19,44% mais cara nos supermercados.
Divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a pesquisa também mostra que, no acumulado do ano, os preços já subiram 25,88%. Apesar de afetar todos os brasileiros, um grupo específico sofre com a alta: universitários que moram sozinhos e, muitas vezes, dependem somente da renda dos estágios.
É o caso de Lucas Campos Rocha, de 20 anos. Estudante de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, o jovem teve que reduzir o consumo diário da proteína quase pela metade.
— O ovo era muito mais presente na minha alimentação. Eu comia mais ou menos seis por dia, Geralmente, eram três no café da manhã e três no café da tarde. Hoje, eu diminuí para dois ou três — relata.
Lucas costumava comprar uma caixa de 30 ovos duas vezes no mês, ou seja, semana sim, semana não. Atualmente, nos supermercados de Florianópolis, a caixa está custando em torno de R$ 30. Por isso, o estudante deixa uma maior janela de tempo entre as compras.
— Eu comia bastante ovo por ser uma proteína bem mais em conta se comparado com outras fontes, como frango, carne, whey protein, enfim. O engraçado é que hoje vale mais a pena aumentar o consumo dessas proteínas, que em teoria seriam mais caras — comenta.
Ovo como opção proteica
Para os aficcionados pela academia e pela ingestão de proteína ou para os que somente buscam uma alimentação mais saudável, o ovo costumava ser uma ótima opção. A nutricionista Bárbara Lino, que atua em Florianópolis, menciona que a versatilidade e a popularidade do ovo eram aliados de uma alimentação mais rica em proteína.
— Nutricionalmente, o ovo é importante porque é uma proteína de alto valor biológico. Isso quer dizer que todos os aminoácidos essenciais estão presentes nele. É uma proteína que não precisaria de outras para ficar completa — esclarece.
Os ovos, de acordo com Bárbara, são fontes de proteína muito fáceis de incluir em refeições intermediárias, como café da manhã ou da tarde, o que Lucas costumava fazer com frequência. A consequência de diminuir o consumo do alimento, em palavras simples, é diminuir a quantidade de proteínas consumidas no dia.
— Se essa pessoa substituiu o ovo por uma geleia ou um doce de banana no pão da manhã, por exemplo, ela perdeu esse consumo de proteínas, que é importante para o ganho de massa muscular ou, no caso de pessoas idosas, preservar a massa muscular — diz.
Para outros estudantes, no entanto, esse remanejamento na fonte proteica pode ser mais difícil. É o que acontece com Manuela Lohn, de 23 anos, que cursa Nutrição na UFSC e divide moradia com outra estudante no bairro Trindade, próximo à universidade. Ela é ovolactovegetariana, ou seja, não come carnes, peixes e derivados. A principal fonte de proteína da estudante seria o ovo, junto do leite.
Por mês, Manuela comprava cerca de 70 ovos, consumindo mais ou menos três por dia. Nos fins de semana, a estudante vai para a casa dos pais na cidade natal, que é relativamente perto da capital catarinense. Os 70 ovos consumidos mensalmente por ela não incluíam o almoço, que ela ganhava de graça no estágio.
Com o preço alto, Manuela se viu obrigada a diminuir o consumo do ovo, mesmo sendo dependente da fonte de proteína. Atualmente, ela compra 30 ovos por mês, e acaba comendo um por dia. Ela também teve que deixar o estágio, onde tinha acesso ao alimento e, por isso, está tendo que recorrer a outras fontes de proteína.
— Estou dependendo bastante da proteína texturizada de soja para atingir minhas necessidades proteicas diárias. Como eu acabo buscando promoções, sai muito mais barato que o ovo, além de render mais. Mas o ovo é bem mais prático, versátil e não é um ultra processado, né — comenta.
A soja é uma boa substituta para as pessoas com dietas restritivas em relação à carne, explica Bárbara.
— Uma fonte de proteína na natureza são as leguminosas. A gente pode pensar em soja, ou até mesmo em aumentar o prato de arroz com feijão, que juntos acabam formando uma proteína completa. Feijão, lentilha, ervilha, grão-de-bico, todos esses são proteínas vegetais que podem ser agregadas na alimentação e aumentam o consumo proteico. Mas nada tão fácil como o ovo, porque fazer uma pasta de grão-de-bico, por exemplo, é muito mais complexo — pontua a nutricionista.
Estudantes sofrem com preços de outras proteínas
Para além do ovo, proteínas como leite e queijo também são “vilões” para os estudantes. Ísis Leites Regina, de 22 anos, cursa jornalismo na UFSC e costumava morar sozinha no bairro Trindade, o mesmo que Manuela.
— Eu parei de tomar leite e comer queijo por conta do preço, porque achava um absurdo gastar R$ 45 no quilo do queijo — comenta a estudante.
Quando o ovo encareceu, Ísis deixou de comprá-lo com frequência e evitava comer muito, para que ele não acabasse rápido. Uma tática era misturar a proteína com legumes no omelete, para que rendesse mais.
Ísis recentemente se mudou com o namorado, o que passou a ajudar a fonte de renda. Como o casal criou o hábito de cozinhar, ela tem outras fontes de proteína.
O que explica o aumento no preço do ovo?
Na venda de distribuidores atacadistas para os supermercados, o movimento de aumento no preço dos ovos já vem sendo sentido desde dezembro. Nas últimas semanas, no entanto, o impacto tem chegado às gôndolas dos supermercados, surpreendendo consumidores que buscavam no produto uma alternativa para substituir a proteína com a alta no preço da carne.
Fonte: Portal Peperi
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